A Cidade Refúgio se preocupa não só com a recuperação física e espiritual, mas está também empenhada em proporcionar a recuperação mental e emocional de todos os seus residentes. Por esse motivo o projeto conta com um trabalho de Psicologia e Assistência Social, disponibilizando profissionais preparados para prestar atendimento aos internos e seus familiares.
Conhecendo o Perfil Psicológico dos Moradores de Rua
Além da violência, da segregação, da exclusão, das condições inadequadas de habitações e da própria pobreza, os moradores de rua enfrentam também outro problema: os “distúrbios psicológicos”, causados por todos os problemas anteriores. Estudos apontaram que a principal dificuldade encontrada é a pobreza. O médico Dr. Ivo Soares, em sua tese de doutorado ‘Distúrbios Mentais e a Pobreza’, relata:
“A pobreza é associada a uma alta morbidade física e mental. As condições inadequadas de habitação dos indivíduos pobres são importantes fatores na produção de doenças. A alta morbidade psiquiátrica nesses indivíduos poderia, também, ser explicada pela condição de pobreza. Os indivíduos que vivem na pobreza são vulneráveis a diferentes problemas de saúde em razão do pobre padrão de higiene pessoal e ambiental. O estado sanitário precário de suas habitações, a falta de espaço, as construções precárias, etc., são fatores que influenciam negativamente tanto na saúde física quanto mental”. (Freeman, 1983)
Na opinião do Dr. Ivo Soares, estes fatores são responsáveis na causa de doenças tanto físicas quanto mentais. Além de doenças físicas, as psicossomáticas são as piores, a saber: disforia, anedonia, intolerância aos incômodos, culpabilidade, hostilidade e raiva, reação impensada, sentimentos de direitos, complexo de inferioridade, depressão, etc. Vamos definir cada uma delas:
- Disforia: é a perda dos sentimentos, até mesmo para se resguardar do momento que está vivendo.
- Anedonia: é a perda da capacidade de sentir prazer.
- Intolerância aos Incômodos: em suas ações, tendem a fugir quando limites são estabelecidos.
- Culpabilidade: caracterizado por vários sentimentos tanto de culpa como de vergonha. A culpa, a punição e a autodestruição tornam-se um círculo vicioso na vida destas pessoas. Através da autodestruição procuram alívio no sofrimento, como uma provável fuga para se sentir perdoado. O problema não está na capacidade de sentir culpa, mas em como lidar com a experiência da culpa.
- Hostilidade e Raiva: alto grau de comportamentos violentos. O alto ódio impulsiona a idéia de que não existe nada a perder.
- Reação Impensada: refere-se à dificuldade de autocontrole imediato.
- Sentimentos de Direitos: sentimento de inferioridade em relação as outras pessoas, provocando a diminuição da concentração em tarefas planejadas e apagando as lembranças de obrigações a cumprir.
- Depressão: doença marcada por mudanças extremas no comportamento, energia e ânimo de uma pessoa, afetando tanto a mente quanto o corpo. Transtorno afetivo ou de humor caracterizado por uma alteração psíquica e orgânica global, com conseqüentes alterações na maneira de valorizar a realidade e a vida.
Dentre essas doenças citadas, talvez a depressão seja um dos piores e mais comuns problemas da vida desta população. A forma mais utilizada para ludibriá-la é o uso demasiado de substâncias psicoativas como o álcool e drogas. Esse é um fator extremamente prejudicial à doença, pois agrega novos sintomas, além de levar o usuário a quedas de consciência. Esta realidade pode ser facilmente detectada nos postos de saúde, nos hospitais e, principalmente, nas comunidades terapêuticas.
Tais disfunções psicológicas são triviais na vida dos moradores de rua. Por causa deste triste perfil essa população tem sido vítima da segregação da sociedade. A análise feita em geral pela sociedade é que o morador de rua é um sujeito preguiçoso, bêbado, drogado e folgado. Mas podemos perceber que atrás de cada um deles existe um histórico de frustração, derrota, desestrutura familiar. Seu histórico é, sem dúvida, marcado pela dor, pelo sofrimento e pela miséria.
Pr. Júlio Flávio Lacerda
Assistencialismo ou Inclusão Social?
Talvez seja melhor começar pelo conceito de assistencialismo. Este é um vocábulo derivado da palavra “assistência”, que significa “ajuda” ou “auxílio” e cujo significado original era, em latim, “estar perto de”. Recentemente, nos países da América Latina, surgiu a necessidade de criar uma terminologia nova que fizesse referência à marca teórica dos serviços de assistência social.
Assim nasceu o conceito de assistencialismo. É importante assinalar que, nas organizações que trabalham com moradores de rua, o assistencialismo é qualificado como o “pecado institucional por excelência”. A maioria das organizações e do seu pessoal considera que a ajuda direta apenas cria dependência e contribui para que as pessoas permaneçam na rua. Portanto, assistencialismo é continuar assistindo o indivíduo nas suas necessidades, sem que elas sejam resolvidas.
Ao contrário disso, a inclusão social é uma ação que combate a exclusão social geralmente ligada a pessoas de classe social baixa, baixo nível educacional, portadoras de deficiência física, idosos ou minorias raciais, entre outras que não têm acesso a várias oportunidades. Inclusão social é oferecer aos mais necessitados oportunidades de participarem da distribuição de renda do País, dentro de um sistema que beneficie a todos e não somente a uma camada da sociedade.
Muitos são os grupos sociais vítimas de uma política assistencial falida e obsoleta que traz apenas um beneficio imediatista e provisório, e por outro lado faz aumentar, ainda mais, desastrosa e assombrosamente a dependência e a necessidade contínua. Dentro deste contexto, as pessoas ficam estagnadas, alienadas e improdutivas ao invés de serem reinseridas a sociedade através de programas sociais que lhes permitam uma vida ativa e comum. Essa política mascarada, só perpetua a miséria para essa camada da sociedade.
Qualquer tentativa política em criar projetos assistenciais, como por exemplo, Bolsa-Família, Fome Zero, Bolsa-Escola e outros projetos assistenciais, não resolverão o problema da exclusão social. Precisamos de uma política social prática e eficaz para solucionar o problema da exclusão social que ainda permeia a sociedade injustiçada.
Precisamos de uma política que possa atingir o excluído na sua plenitude, bem como criar programas abrangentes, projetos, metas e estratégias para tirá-los do calabouço que se encontram. Não vamos conseguir isto simplesmente dando-lhes assistência.
Formado em Economia pela PUC-SP e doutor em Ciências Sociais pela mesma universidade, Cassiano Ricardo Bovo, 46 anos, sustenta a idéia de que, embora os programas assistencialistas se caracterizem, entre outras coisas, por melhorar o nível de renda da população, eles não representam uma alternativa viável em longo prazo. Só o assistencialismo não adianta.
Percebendo essa realidade, o Projeto Cidade Refúgio oferece aos moradores de rua uma oportunidade para mudar de vida por meio de um programa que visa recuperação, tratamento, profissionalização e reinserção social.
O Projeto Cidade Refúgio acredita que o homem não é apenas um ser social, mas também espiritual e por isso ele necessita de algo mais concreto – de uma espiritualidade e de uma sociabilidade plena. Tudo que fazemos em prol do ser humano, sem a participação do reino de Deus é paliativo. Entretanto, o reino de Deus é o único meio para atingir o homem na sua plenitude. Assim, humanamente entendemos que a inclusão social é o melhor caminho para ajudar aos necessitados, principalmente a população de rua.
Pr. Emanoel Domingos - Colaborador